CATAMARÃ OU NAVIO NEGREIRO?
Bahia! Terra da
cultura negra e de tantos detalhes turísticos que encantam aos olhos de quem os
vê.
Encanta aos olhos de quem vê e do que não se vê também!
Nessas andanças da vida fomos “premiados” com uma querida
lição ao término de uma viagem de férias.
Nesse mesmo dia tivemos a oportunidade de ser acalentados
por uma vovó muito querida, que preferiu ajudar dando-nos uma aula de
história...
Era um belo dia de sol, bonito que nem sei. Regressávamos
de bonita viagem a uma ilha paradisíaca no sul da Bahia e a dúvida pairava
sobre o grupo familiar de como seria a volta ao continente. Será que seria
melhor utilizar o trajeto Ferryboat + Van + Ônibus, ou seria melhor pegar um
Catamarã? Sem dúvida o Catamarã era a opção mais rápida reduzindo o tempo do
trajeto em mais de duas horas.
Mar bonito, azul meio esverdeado ou verde meio azulado,
coisa linda de se ver! Ao amanhecer o sol estava brilhante e o céu dos mais
limpos. Está decidido, vamos por mar, de Catamarã!
Nada melhor do que conhecer a casa de Mãe Iemanjá. A grande
Calunga! Odociaba[1],
minha mãe!
E fomos felizes e faceiros embarcando um a um...
Porém, aquele friozinho na barriga apareceu com uma
risadinha típica e conhecida de nossos ouvidos espirituais “eh, eh!”.
Para quem não conhece, Catamarã[2] é
uma embarcação leve e fica como se fosse apenas um graveto boiando nas ondas,
ao sabor delas. Tem que ser muito valente para estar ali, ou o mar tem que
estar um espelho para que não balance tanto.
E qual foi nossa surpresa naquele dia que tinha raiado
ensolarado, logo após que o barco saiu do atracadouro, começou a ventar muito,
com todos os escolhidos da incrível lição.
Já dá para imaginar o que aconteceu, a maioria de nós não
teve fôlego e o enjoo tomou conta, sem chances de tomar aquele “Dramin”
preventivo, reza, benzedura ou seja lá o que fosse.
Depois de muito vomitar e já não ter mais forças,
prostrei-me ao chão da embarcação numa parte que ficava exposta ao sol e, principalmente,
ao vento.
Já estava tão cansada e desfigurada de tanto vomitar, e pus-me
a reclamar para Deus da desagradável situação, e do porque do destino ter me
pregado tamanha peça.
Rezava e reclamava e já cansada, adormeci sentada, escorada
numa lateral da embarcação.
Nesse meio tempo, entre a vigília e a madorna, pude sentir
uma brisa reconfortante, que refrigerou minha alma, deixando-me leve para
perceber a doce presença de uma vovó muito especial para mim, a Vó Sabina!
Com o seu jeito todo especial, ria tanto de mim de uma
maneira tão peculiar que não senti como deboche ou outra situação do
gênero. Vinha tanto carinho e amizade
daquele ser, que me senti honrada por estar passando por aquela situação.
Tudo aquilo valia a pena, só por ter sentido seu
pensamento!
Depois da vó Sabina dar boas risadas, pude sentir seu
pensamento me dizendo algumas coisas. E foi mais ou menos assim...
“Filha,
não reclama não. Isso que você tá passando, não é nada não! Tem coisa muito
pior...
Sabe,
vou te contar uma coisa, meus ancestrais fizeram uma viagem parecida com essa,
só que em condições muito piores...”
Nesse instante a vó tocou em minha “mente” e em segundos
pude ver toda uma história de dor, sofrimento e de total abuso de poder e
soberba do ser humano.
Enxergava um navio negreiro[3],
em pleno Oceano Atlântico, abarrotado de negros no fundo do navio.
Lá estavam mulheres, homens em total degredo subumano.
Via-lhes os olhos em meio ao pavor, junto daqueles que
conheciam e muitos outros que nunca tinham convivido. Pude sentir a dor, o mal
estar, o mal cheiro em que se encontravam.
O pior foi sentir a dor na alma que eles sentiram quando
foram arrancados de suas casas, de suas pátrias, como se fossem animais. Sem
nenhum poder de escolha naquela situação humilhante.
No porão do navio, percebia os cadáveres em decomposição[4]
junto a corpos vivos, mas como de zumbis vivos, famintos e parecendo sem alma.
Foi uma sensação tão ruim, um misto de dor, revolta, culpa
e vergonha por ser branca, de ser descendente de pessoas que fizeram isso num
passado nem tão longínquo assim.
Visualizei através dos olhos de vó Sabina, mostrando-me uma
parte de sua história, de seus ancestrais. E naquele olhar não tinha raiva,
ódio, nem rancor e nem ao menos mágoa.
Tinha um olhar de alma iluminada, que passou por tanta
coisa na vida e que compreendia a situação de sermos aprendizes na jornada
terrena.
Eu tive o privilégio de passar por isso e agradeci a Deus e
a esta alma bondosa, pois foi me dado uma oportunidade única de aprendizado.
Coisas que não se aprende na aula de história, mas nas aulas da vida.
Foi tudo tão rápido na minha mente, mas no tempo real se
passaram duas horas e meia de viagem, foi quando a vó me disse:
“Acorda
filha, já chegaste. Agora desce e não reclama mais, porque tem coisa muito
pior.
Aqui
tá o meu povo, esse é o meu povo dessa terra bendita, mas que traz essa
história forte. E ainda assim, aprendemos a amar essa terra abençoada, que nos
trouxe muita liberdade, sim!
Aporta
filha e tudo vai ficar bem.”
Quando cheguei ao porto e coloquei meus pés no chão, em
terra firma, dei graças à Deus, e por nenhum segundo estava com enjoo ou com
qualquer outro desconforto.
Ao olhar para trás para agradecer o seu amparo, pude vê-la
indo embora com seu gingado[5],
vestida de branco, com sua saia simples e alva, cantarolando...
“Vovó
Sabina é nega lavadeira,
Lavadeira
sim sinhô,
Lava
roupa de sinhá,
Mas
minha mãe é Iemanjá!”
Inspirado por Vó Sabina
by Luis&Elisa
FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas
histórias ou estórias são ficção[6],
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!
[1] Odoia
ou Odociaba – saudação a Orixá Yemanjá e significam Mãe das águas.
[3] O navio negreiro - ou
"tumbeiro" - foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11
milhões de africanos para serem escravizados na América. Em caravelas ou barcos
a vapor, europeus, americanos e até mesmo negros se metiam no "infame
comércio". Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25
anos. Isso mudou nos últimos anos do tráfico. "Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o
surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres
grávidas", disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao
Parlamento Britânico, em 1840. – Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro
da época da escravidão?” – Revista Mundo
Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[4] Os traficantes dividiam o
porão em três patamares, com altura de menos de meio metro cada um. Presos
pelos pés, mais de 500 escravos se espremiam deitados ou sentados. "Ficavam como livros numa estante",
disse o ex-traficante Joseph Cliffer. Para a higiene bucal, os escravos faziam
bochechos com vinagre. Para limpar o corpo, só podiam se enxaguar duas vezes
durante toda a viagem de meses. Muitos padeciam de graves infecções oculares e
intestinais, e os que não morriam chegavam moribundos ou cegos. – Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro da época da escravidão?” – Revista Mundo Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[5] “Alguém
perguntou por que o espírito João Cobú se manifestava assim, como um preto-velho,
sentado no chão, com as pernas de lado, a voz potente e forte, tão diferente do
médium de que se utilizava. Argumentava que não era necessário a nenhum espírito
apresentar-se daquele modo; não havia motivos para esta caricatura tão rudimentar,
arcaica talvez, própria de religiões apegadas a rituais e maneirismos pueris, segundo
defendia.
Pai João ouvia atento.
Por que motivo escolher a aparência
de um ancião se ele era espírito, e espírito não é idoso nem jovem é apenas espírito.
Após alguns instantes em silêncio, Pai João disse:
— Meu filho, pelo que eu saiba
o espírito já esclarecido pode se apresentar da forma que desejar para estar com
os filhos da Terra. Cada um escolhe a vestimenta que mais lhe agradar. Não há por
aí espíritos que se mostram como irmãs de caridade, padres, orientais, médicos e
tantos outros? Por que o preconceito contra o velho ou a vovó? Será apenas porque
a gente se apresenta como negro, ex-escravo? Isso por acaso desmerece a mensagem
que trazemos? Por que não repelir espíritos que se manifestem como freiras, indianos
ou doutores? Por acaso meu filho pensa que do lado de cá da vida só há diploma de
médicos e eclesiásticos?
Pai João prosseguia:
— O problema, meu filho, é que
velho não dá ibope para os médiuns e donos de centro. Mas, se além da visão do ancião
e do linguajar singelo, a gente se mostra negro, aí sim: o preconceito de meus filhos
fala ainda mais alto... Não há alforria que resolva; o preconceito é cativeiro pior
que a escravidão. Negro, velho e, ainda por cima, morto... Nego acha que isso
incomoda por causa do orgulho e do desejo que vocês têm de enquadrar tudo dentro
dos padrões brancos, vamos dizer. Se é assim, meu filho, aceita o conselho de nego:
vá procurar espíritos superiores, de médicos, padres e irmãs de caridade, e deixa
nego trabalhar quietinho, falando com simplicidade para aqueles que não entendem
linguagem complicada.
Deixa nego trabalhar, cantou
Pai João.” – Pai João de Aruanda – “Sabedoria
de Preto Velho” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.
[6] “Muitos
sensitivos, em todo o Brasil, têm tido experiências mediúnicas que comprovam a
universalidade dos ensinos transmitidos de uma a outra latitude do planeta.
Será que essa universalidade só é possível dentro dos limites ortodoxos do
movimento espírita ou as inteligências imortais realmente se comunicam e se
utilizam de intérpretes, os mais diversos, espíritas ou não:
escritores-médiuns, médiuns-autores, médiuns-terapeutas, médiuns-cientistas,
que não pertençam exatamente ao corpo de representantes da filosofia espírita?
Meditemos, com efeito, sobre essa realidade que supera
a fantasia, a imaginação e a ficção, mas não descartemos a possibilidade de que
os espíritos do Senhor não encontram barreiras para se manifestar; que grande
parte do que hoje é rejeitado pelos renomados estudiosos da mediunidade e dos fenômenos
espíritas, pode estar recheado de mensagens e verdades, que os médiuns
missionários do movimento não aceitariam psicografar.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf.
Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.

