sábado, 7 de março de 2015

CATAMARÃ OU NAVIO NEGREIRO?



CATAMARÃ OU NAVIO NEGREIRO?

Bahia! Terra da cultura negra e de tantos detalhes turísticos que encantam aos olhos de quem os vê.

Encanta aos olhos de quem vê e do que não se vê também!
Nessas andanças da vida fomos “premiados” com uma querida lição ao término de uma viagem de férias.
Nesse mesmo dia tivemos a oportunidade de ser acalentados por uma vovó muito querida, que preferiu ajudar dando-nos uma aula de história...
Era um belo dia de sol, bonito que nem sei. Regressávamos de bonita viagem a uma ilha paradisíaca no sul da Bahia e a dúvida pairava sobre o grupo familiar de como seria a volta ao continente. Será que seria melhor utilizar o trajeto Ferryboat + Van + Ônibus, ou seria melhor pegar um Catamarã? Sem dúvida o Catamarã era a opção mais rápida reduzindo o tempo do trajeto em mais de duas horas.
Mar bonito, azul meio esverdeado ou verde meio azulado, coisa linda de se ver! Ao amanhecer o sol estava brilhante e o céu dos mais limpos. Está decidido, vamos por mar, de Catamarã!
Nada melhor do que conhecer a casa de Mãe Iemanjá. A grande Calunga! Odociaba[1], minha mãe!
E fomos felizes e faceiros embarcando um a um...
Porém, aquele friozinho na barriga apareceu com uma risadinha típica e conhecida de nossos ouvidos espirituais “eh, eh!”.
Para quem não conhece, Catamarã[2] é uma embarcação leve e fica como se fosse apenas um graveto boiando nas ondas, ao sabor delas. Tem que ser muito valente para estar ali, ou o mar tem que estar um espelho para que não balance tanto.
E qual foi nossa surpresa naquele dia que tinha raiado ensolarado, logo após que o barco saiu do atracadouro, começou a ventar muito, com todos os escolhidos da incrível lição.
Já dá para imaginar o que aconteceu, a maioria de nós não teve fôlego e o enjoo tomou conta, sem chances de tomar aquele “Dramin” preventivo, reza, benzedura ou seja lá o que fosse.
Depois de muito vomitar e já não ter mais forças, prostrei-me ao chão da embarcação numa parte que ficava exposta ao sol e, principalmente, ao vento.
Já estava tão cansada e desfigurada de tanto vomitar, e pus-me a reclamar para Deus da desagradável situação, e do porque do destino ter me pregado tamanha peça.
Rezava e reclamava e já cansada, adormeci sentada, escorada numa lateral da embarcação.
Nesse meio tempo, entre a vigília e a madorna, pude sentir uma brisa reconfortante, que refrigerou minha alma, deixando-me leve para perceber a doce presença de uma vovó muito especial para mim, a Vó Sabina!
Com o seu jeito todo especial, ria tanto de mim de uma maneira tão peculiar que não senti como deboche ou outra situação do gênero.  Vinha tanto carinho e amizade daquele ser, que me senti honrada por estar passando por aquela situação.
Tudo aquilo valia a pena, só por ter sentido seu pensamento!
Depois da vó Sabina dar boas risadas, pude sentir seu pensamento me dizendo algumas coisas. E foi mais ou menos assim...
“Filha, não reclama não. Isso que você tá passando, não é nada não! Tem coisa muito pior...
Sabe, vou te contar uma coisa, meus ancestrais fizeram uma viagem parecida com essa, só que em condições muito piores...”

Nesse instante a vó tocou em minha “mente” e em segundos pude ver toda uma história de dor, sofrimento e de total abuso de poder e soberba do ser humano.
Enxergava um navio negreiro[3], em pleno Oceano Atlântico, abarrotado de negros no fundo do navio.

Lá estavam mulheres, homens em total degredo subumano.
Via-lhes os olhos em meio ao pavor, junto daqueles que conheciam e muitos outros que nunca tinham convivido. Pude sentir a dor, o mal estar, o mal cheiro em que se encontravam.
O pior foi sentir a dor na alma que eles sentiram quando foram arrancados de suas casas, de suas pátrias, como se fossem animais. Sem nenhum poder de escolha naquela situação humilhante.
No porão do navio, percebia os cadáveres em decomposição[4] junto a corpos vivos, mas como de zumbis vivos, famintos e parecendo sem alma.
Foi uma sensação tão ruim, um misto de dor, revolta, culpa e vergonha por ser branca, de ser descendente de pessoas que fizeram isso num passado nem tão longínquo assim.
Visualizei através dos olhos de vó Sabina, mostrando-me uma parte de sua história, de seus ancestrais. E naquele olhar não tinha raiva, ódio, nem rancor e nem ao menos mágoa.
Tinha um olhar de alma iluminada, que passou por tanta coisa na vida e que compreendia a situação de sermos aprendizes na jornada terrena.
Eu tive o privilégio de passar por isso e agradeci a Deus e a esta alma bondosa, pois foi me dado uma oportunidade única de aprendizado. Coisas que não se aprende na aula de história, mas nas aulas da vida.
Foi tudo tão rápido na minha mente, mas no tempo real se passaram duas horas e meia de viagem, foi quando a vó me disse:
“Acorda filha, já chegaste. Agora desce e não reclama mais, porque tem coisa muito pior.
Aqui tá o meu povo, esse é o meu povo dessa terra bendita, mas que traz essa história forte. E ainda assim, aprendemos a amar essa terra abençoada, que nos trouxe muita liberdade, sim!
Aporta filha e tudo vai ficar bem.”

Quando cheguei ao porto e coloquei meus pés no chão, em terra firma, dei graças à Deus, e por nenhum segundo estava com enjoo ou com qualquer outro desconforto.
Ao olhar para trás para agradecer o seu amparo, pude vê-la indo embora com seu gingado[5], vestida de branco, com sua saia simples e alva, cantarolando...
“Vovó Sabina é nega lavadeira,
Lavadeira sim sinhô,
Lava roupa de sinhá,
Mas minha mãe é Iemanjá!”


Inspirado por Vó Sabina

 by Luis&Elisa


FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas histórias ou estórias são ficção[6], qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!




[1] Odoia ou Odociaba – saudação a Orixá Yemanjá e significam Mãe das águas.
[2] Catamarã (do tâmil kattumaram < kattu, 'ligadura', + maram, 'pau') é a designação dada a uma embarcação com dois cascos (vulgarmente chamados "bananas"), com propulsão à vela ou motor, que se destaca por sua elevada estabilidade e velocidade em relação às embarcações monocasco. Fonte Wikipedia.
[3] O navio negreiro - ou "tumbeiro" - foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11 milhões de africanos para serem escravizados na América. Em caravelas ou barcos a vapor, europeus, americanos e até mesmo negros se metiam no "infame comércio". Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25 anos. Isso mudou nos últimos anos do tráfico. "Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres grávidas", disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao Parlamento Britânico, em 1840. Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro da época da escravidão?” – Revista Mundo Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[4] Os traficantes dividiam o porão em três patamares, com altura de menos de meio metro cada um. Presos pelos pés, mais de 500 escravos se espremiam deitados ou sentados. "Ficavam como livros numa estante", disse o ex-traficante Joseph Cliffer. Para a higiene bucal, os escravos faziam bochechos com vinagre. Para limpar o corpo, só podiam se enxaguar duas vezes durante toda a viagem de meses. Muitos padeciam de graves infecções oculares e intestinais, e os que não morriam chegavam moribundos ou cegos. Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro da época da escravidão?” – Revista Mundo Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[5] “Alguém perguntou por que o espírito João Cobú se manifestava assim, como um preto-velho, sentado no chão, com as pernas de lado, a voz potente e forte, tão diferente do médium de que se utilizava. Argumentava que não era necessário a nenhum espírito apresentar-se daquele modo; não havia motivos para esta caricatura tão rudimentar, arcaica talvez, própria de religiões apegadas a rituais e maneirismos pueris, segundo defendia.
Pai João ouvia atento.
Por que motivo escolher a aparência de um ancião se ele era espírito, e espírito não é idoso nem jovem é apenas espírito. Após alguns instantes em silêncio, Pai João disse:
— Meu filho, pelo que eu saiba o espírito já esclarecido pode se apresentar da forma que desejar para estar com os filhos da Terra. Cada um escolhe a vestimenta que mais lhe agradar. Não há por aí espíritos que se mostram como irmãs de caridade, padres, orientais, médicos e tantos outros? Por que o preconceito contra o velho ou a vovó? Será apenas porque a gente se apresenta como negro, ex-escravo? Isso por acaso desmerece a mensagem que trazemos? Por que não repelir espíritos que se manifestem como freiras, indianos ou doutores? Por acaso meu filho pensa que do lado de cá da vida só há diploma de médicos e eclesiásticos?
Pai João prosseguia:
— O problema, meu filho, é que velho não dá ibope para os médiuns e donos de centro. Mas, se além da visão do ancião e do linguajar singelo, a gente se mostra negro, aí sim: o preconceito de meus filhos fala ainda mais alto... Não há alforria que resolva; o preconceito é cativeiro pior que a escravidão. Negro, velho e, ainda por cima, morto... Nego acha que isso incomoda por causa do orgulho e do desejo que vocês têm de enquadrar tudo dentro dos padrões brancos, vamos dizer. Se é assim, meu filho, aceita o conselho de nego: vá procurar espíritos superiores, de médicos, padres e irmãs de caridade, e deixa nego trabalhar quietinho, falando com simplicidade para aqueles que não entendem linguagem complicada.
Deixa nego trabalhar, cantou Pai João.” – Pai João de Aruanda – “Sabedoria de Preto Velho” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.
[6]Muitos sensitivos, em todo o Brasil, têm tido experiências mediúnicas que comprovam a universalidade dos ensinos transmitidos de uma a outra latitude do planeta. Será que essa universalidade só é possível dentro dos limites ortodoxos do movimento espírita ou as inteligências imortais realmente se comunicam e se utilizam de intérpretes, os mais diversos, espíritas ou não: escritores-médiuns, médiuns-autores, médiuns-terapeutas, médiuns-cientistas, que não pertençam exatamente ao corpo de representantes da filosofia espírita?
Meditemos, com efeito, sobre essa realidade que supera a fantasia, a imaginação e a ficção, mas não descartemos a possibilidade de que os espíritos do Senhor não encontram barreiras para se manifestar; que grande parte do que hoje é rejeitado pelos renomados estudiosos da mediunidade e dos fenômenos espíritas, pode estar recheado de mensagens e verdades, que os médiuns missionários do movimento não aceitariam psicografar.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.