segunda-feira, 11 de maio de 2015

UM SOLDADO ROMANO COM JOÃO EVANGELISTA


Num passado remoto, numa última existência servindo a Roma, a obediência cega a regras e normas sempre fora o meu ponto forte. Como soldado sempre obedecia sem questionar propósitos e fins, por isso sempre era convocado para empreitadas diversas por meus superiores.
Acreditava firmemente que meu propósito maior era servir e proteger. Via em meus generais a sabedoria irrestrita e o poder em conduzir um povo muitas vezes ignorante e até mesmo perverso. Faço essas considerações para que os amigos encarnados possam compreender minhas reflexões e inquietações nesta imersão no passado, naquela que com certeza foi a mais marcante de minhas passagens aqui neste orbe, e que foi capaz de me redefinir como ser viajante das estrelas.
Como soldado de Roma, em posição que não me compete agora falar, pude testemunhar a passagem de nossa maior estrela nos últimos milênios, o maior Avatar de todos – o Cristo Jesus, mas para mim um testemunho de uma forma singular, quase na indiferença. Não, não tive o privilégio de ouvir a voz do Cristo, nem tocar-Lhe as vestes, muito menos de cruzar os meus olhos fracassados com aquele ser revestido de luz e amor.
Lembro, de escutar os rumores nas regiões próximas, de um homem que todos chamavam de Messias, que falava sobre as coisas do outro mundo. Nada que tocasse o meu coração obcecado e endurecido pelas batalhas sem fim, vencidas ou perdidas em nome de Roma. Não, não tive a oportunidade de viver em Roma, servia no exército romano em regiões distantes como milhares de outros homens de minha época, com um posto médio e inexpressivo para os anais da história.
Mesmo tendo escutado rumores sobre o Nazareno não me dispus a aprofundar conhecimentos sobre tal criatura, que julgava como muitos de meus colegas na época, como um arruaceiro a falar mal de Roma ou dos próprios sacerdotes Judeus, sua própria gente.
A crucificação não era algo trivial, mas também já não chamava tanta atenção como nos seus primórdios. Mas quando soube que o tal Nazareno seria crucificado, notei que a multidão reagia de forma mais intensa, os murmurinhos se alastravam com maior rapidez e despertavam discussões acaloradas, principalmente entre os judeus.
Talvez por isso, tenhamos sido advertidos por nosso superior, a sermos mais rígidos no controle do povo naquele dia, seriam três crucificações nas quais era esperada maior balbúrdia de um povo encolerizado ou revoltado. Um papel que assumira muitas vezes nas posições iniciais dentro das fileiras do exército, mas que fazia uns cinco anos que não desempenhava mais, em virtude das últimas promoções recebidas.
Mesmo a contragosto, não reclamei e busquei as informações sobre qual ponto do trajeto ficaria sobre minha responsabilidade e de quantos outros soldados ficariam próximos a mim e sob meu comando. No momento combinado, estava eu com meu pequeno grupo de nove soldados tomando conta de uma lateral da rua destinada ao trajeto, num entroncamento que saia de duas vielas em convergência, formando com um “V“ gigantesco. Minha experiência me intuía que era um ponto frágil de segurança e que se uma massa maior de cidadãos saísse do controle, poderíamos ter problemas. Resolvi assim ficar em posição mais estratégica onde poderia olhar melhor as criaturas que vinham das duas vielas. Todos nos postávamos de costas para a rua principal e de frente para o povo que já começava a se acotovelar para assistir a passagem dos condenados.
A tensão enchia o ar de uma energia incômoda, que deixavam mais ainda os meus sentidos em alerta. Por diversas vezes usamos de força para manter o povo em sua posição, pois muitos queriam invadir a via antes da passagem dos condenados. Lembro ainda de forma muito clara quando um senhor de braços magricelos e cabelos desgrenhados tentou furar a fileira de soldados e ir em direção ao outro lado, mas como estava quase na minha frente, empunhei minha lança na horizontal e empurrei com força o velhinho que foi jogado longe e caiu de costas. O incidente despertou os olhares raivosos de muitos dos que estavam a minha volta e sentia a raiva tencionar o ambiente.
Na passagem do segundo prisioneiro condenado, mesmo olhando firmemente para o povo a minha frente e cuidando a movimentação nas vielas atrás, senti algo estranho, uma vibração poderosa que por instantes fez minhas pernas tremerem. Mesmo aqueles que gritavam impropérios, naqueles poucos segundos calaram-se, para em seguida voltar a gritar. Mas era uma onda de silêncio, de desconforto, como se eu estivesse momentaneamente nu, sem roupas, despido de minhas armas e escudos.
E, pela primeira vez em minha vida, cuidando da segurança numa via de crucificação, eu olhei para trás, pois uma força me impulsionava a ver quem tinha afinal passado. Para ETERNA tristeza minha, não vi o rosto daquele SER, só via suas costas machucadas do açoite, dos que lhe flagelavam o corpo para transportar a cruz. Sim, ele ainda a carregava naquele momento do suplício, onde somente mais tarde o Cirineu compartilharia com ele o esforço final de carregar o madeiro.
Não vi o seu rosto, nem consegui gravar o tom do seu cabelo, manchado de sujeira e sangue, nenhum detalhe como tamanho das mãos ou pés, cor dos olhos, nada, absolutamente nada, ainda hoje tento recuperar algum detalhe mais específico, e tudo parece ter se apagado de minha mente, como se não merecesse ter alguma lembrança mais precisa daquele Homem.
Alguns metros sofridos acima, ainda tentava captar algo de sua fisionomia, para tentar ver se tinha cruzado com aquela criatura em algum outro momento, mas foi em vão. De repente, penso eu hoje, talvez pelo meu pensamento de curiosidade, aquele Homem para, e olha para o lado, não em minha direção, mas para o mesmo lado da rua em que estava, foi por poucos segundos, não distingui nenhum novo detalhe, não vi o seu olhar, mas tive a certeza em meu íntimo de que Ele captou ou sentiu o meu olhar indagador...
O martírio continua e eu volto rapidamente o meu olhar para o povo a minha frente, continuando a fazer o que sempre fiz, a impedir que a desordem tomasse conta dos processos de crucificação. Fiquei ali até todos terem passado e a população local ficar desinteressada. Muitos após os últimos soldados que acompanhavam os condenados terem passado, foram atrás dos mesmos, a maioria falando palavrões e xingamentos aos prisioneiros, e muito poucos, chorando em desespero pela condenação sabe lá de qual deles.
Não pensem que o episódio do quase cruzamento de olhares foi suficiente para me demover de minha posição no local, ou de me fazer sair como a turba a acompanhar o grupo até o monte do calvário. Dali, saí em companhia de outros soldados, conversando frivolidades, ainda que algo me apertasse o estômago, pensava que tivesse sido algo que comi de véspera que não estaria me fazendo muito bem.
Ainda hoje reflito, na oportunidade que perdi, não só de conhecê-Lo em vida, mas ao menos de ter ido assistir sua crucificação, ainda vivo, ou quem sabe, ainda que morto, crucificado na cruz, poderia ter divisado sua face, mesmo que com os olhos sem vida, ainda teria visto o Cristo, de quem veio para nos dar o maior testemunho de amor e perdão de nosso planeta. Mas não fiz nada disso...
Dias após a crucificação ainda ouvi os burburinhos de que o Nazareno teria voltado dos mortos, soube pelos meios oficiais de que sua tumba havia sido violada e seu corpo roubado, era a versão do governo local. Mas sabendo dos rumores, poderia ter tentado saber mais, quem sabe poderia, mesmo sem merecer, ter tido a graça de revê-Lo redivivo.
Passaram-se quase sete anos, quando informações esparsas iam chegando aos meus ouvidos, sobre os ensinamentos do Cristo, e que muito de seus seguidores estavam ainda divulgando. Muitas dessas ideias encontravam sintonia íntima, ainda que em sigilo, no meu coração, já algo cansado das batalhas e do sangue. A idade traz essa recompensa para nós, acabamos cansando do mal que ainda habita em nossos corações.
Numa das campanhas de que participei servindo a Roma, estava em um vilarejo, descansando, ou melhor, em meu horário de folga, sem trajes e após ter bebido retornava para dormir e já estava amanhecendo. Peguei uma rua estreita e vi a movimentação de pessoas cochichando, caminhando apressadas, era muito cedo e me chamou a atenção. Resolvi segui-las e chegamos a pequeno bosque, onde em cima de uma pedra, um homem jovem falava sobre os exemplos de Jesus, com expressões alegres, falava do mesmo como se Ele ainda estivesse vivo. As pessoas riam alegres com suas histórias, e eu ri também. Uma alegria profunda, uma descontração que não sentia desde a minha infância ou adolescência, descobri que o orador se chamava João, o mais jovem dos seguidores de Jesus em vida.
Não me lembro de ter visto novamente aquele homem jovial, mas ele despertou uma curiosidade em mim. Não, não tinha me tornado cristão, era ainda um soldado fiel a Roma, mas era um ser curioso...
Comecei a aproveitar as viagens em campanhas militares por lugares diversos para no anonimato, em cidades desconhecidas, encontrar os agrupamentos que falavam sobre o Cristo. Nunca tive coragem de assumir uma crença cristã ou modificar o meu comportamento, mas confesso que minhas ideias sobre justiça foram se depurando, começava a enxergar muitas arbitrariedades, não só nas autoridades romanas, mas nos meus próprios colegas de exército e arrumei algumas brigas e inimigos ao tentar coibir abusos que me irritavam pelo disparate.
Roma já tinha começado com seus espetáculos de horrores, e para saciar a sede de sangue de suas castas privilegiadas muitos circos foram montados em lugares diversos. Não só o Coliseu recebia espetáculos sangrentos onde os cristãos eram trucidados por guerreiros ou entregues a feras. Muitas outras cidades importantes tinham espetáculos em menor proporção de suntuosidade, mas não menos sanguinários e desprezíveis.
Infelizmente, o homem é capaz de golpes traiçoeiros, naquela época muitos denunciavam famílias inteiras como cristãs, somente para usurpar de seus bens ou para ficar com suas viúvas cobiçadas, acusando maridos e filhos homens como seguidores do Cristo. Muitos foram sacrificados sem serem sequer seguidores realmente do Nazareno.
Nesta época, tirava escalas de trabalho regulares na guarda das celas dos cristãos que seriam encaminhados para os espetáculos. Naquela época tinha participado de uns poucos encontros com palestras dos cristãos que se escondiam cada vez mais de Roma. Numa oportunidade vi acalorada discussão ou orientação entre um senhor idoso e seu filho, também já aparentando ser um pai de família, e aquele que parecia ser o orientador religioso daquele grupo.
A sabedoria do orientador era imensa, o pai de família perguntava como poderia converter sua esposa e filhos para os ensinamentos do Cristo, já que mesmo lhes explicando e falando do amor e da vida no Nazareno não conseguia lhes tocar as fibras da alma. O idoso lhe falava que deveria usar sua autoridade de marido e obrigar filhos e esposa a segui-lo na nova fé. Mas o abnegado orientador, falava que cada um só podia dar testemunho do que lhe brotava no coração. E que fé não se impõe, é construção individual. Aquela lucidez me cativou, não devia ser fácil viver numa família dividida pela fé.
A vida nos coloca em situações delicadas, onde somos chamados a assumir nosso verdadeiro eu. Poucos meses depois dessa cena por mim presenciada, ao passar em revista as celas com os prisioneiros, para a noite e o último raiar do sol que antecederia os espetáculos de carnificina humana, encontrei numa das celas o pai de família, ao lado do mesmo senhor idoso, e o que parecia ser toda sua família. A mulher estava a xingar e esbofetear o rosto do esposo, a lhe acusar de que morreria por uma causa que não acreditava. A cena era triste de se testemunhar, na cela apertada e deitados no chão ainda estavam dois filhos adolescentes e duas meninas, uma claramente com uns cinco ou seis anos de idade e o homem mais idoso, com o olhar perdido no horizonte. Aquele olhar ao cruzar com o meu, me deu um choque, o senhor me reconhecera, mas não falou nada, nenhum som... somente sorrira para mim.
Virei as costas e saí rapidamente, com medo de que os prisioneiros falassem e comprometessem a minha posição junto aos soldados. Eu poderia até ser condenado se soubessem que estava ouvindo preleções cristãs. Mas o que me incomodava é que a esposa bonita e aquelas crianças não eram cristãs, nem os adolescentes, pois ainda me lembrava de como brigavam com o pai pela nova fé assumida e que eles repudiavam. Isso era muita injustiça!
Alguém havia feito uma traição para aquela família, acusando injustamente a todos. Eu iria descobrir quais eram os interesses envolvidos. Saí rapidamente, cheguei a casa daquela família, naquela época já tinha descoberto que os mesmos possuíam armazém e que vendiam provisões para aquela parte da cidade. Ao chegar ao local reconheci o filho do nosso comandante com sua mulher, fazendo as vendas para os clientes e compreendi tudo, era um golpe para se apropriar materialmente das posses da família, por isso precisavam se livrar de toda a família do comerciante. Não sou ingênuo, ao ver o filho do meu comandante, percebi que aquela família não teria chance.
Decidi que eu mesmo faria justiça naquela noite, não pensei em mais nada, somente em tirar eles daquela cela e ajudá-los a fugir, sem me expor, é claro. Entrando no local das celas, dei um jeito para redistribuir a guarda, que devido a minha posição obedeceu prontamente. Deixei a guarda mínima, e o mais sonolento para ficar comigo naquele setor das celas. Menos de uma hora depois percebendo que o soldado cochilava bati forte em sua cabeça para que ficasse desmaiado, faria o mesmo comigo mesmo depois de ajudar a família a fugir, simulando ter sido atacado por alguma outra pessoa desconhecida.
Cheguei a cela e pedi silêncio a todos da pequena família, que me obedeceram de pronto. Abri a porta e todos foram saindo, fechei a porta sem muito barulho e ia conduzindo o grupo fugitivo. Contudo, a ignorância é companhia inseparável do ser humano, e ao passarmos por uma cela, um dos outros condenados ao perceber o ocorrido, carcomido de inveja e revoltado, começou a gritar, acordando vários detentos das demais celas, que em vez de serem solidários começaram a berrar feito loucos.
Acabei assim, sendo surpreendido pelos outros guardas, que perceberam a minha intenção. Não tive tempo de fazer nada, achavam que eu estava tentando salvar a mulher e me agrediram, para logo depois me jogarem junto na mesma cela daquela família. Poucas horas depois, o mesmo comandante que tinha posto seu filho no controle das posses daquela família, apareceu junto a cela, e olhando desconfiado para mim, como a ler minha mente, decretou que eu seria sentenciado junto por ser um cristão a proteger outros cristãos. Revoltei-me e gritei revelando toda a verdade, dizendo do golpe de seu filho e dele mesmo, e negando ser cristão, variadas vezes! Mas foi tudo em vão...
Vi o sol nascer em profundo desespero, estava numa situação impensada, dando um testemunho para o qual não estava preparado, com o coração revoltado com minha própria burrice. Na hora programada para o espetáculo cruel, sobre o olhar atento dos que se deliciavam com a selvageria, fomos todos conduzidos a arena central. Minha cabeça girava, não prestei atenção aos gritos daquela pequena família, e não reagi ao ataque das feras, por saber ser impossível sobreviver, somente baixei a cabeça e senti os dentes da fera atravessarem meu pescoço de forma fatal.
Não sei quanto tempo depois, vi a luz do sol muito forte quase a me cegar e reconheci numa sombra humana aquele sorriso familiar, daquele senhor idoso, o que tinha me reconhecido lá na cela, e ele muito tranquilo, com as roupas limpas me estendeu a mão. As minhas vestes estavam todas sujas de sangue e ele me falou, acho que em pensamento, que eu iria trocar de roupas e me lavar, pois alguém queria me ver.
Não sei dizer quanto tempo se passou se foram horas ou dias, pois senti de adormeci, quando acordei já estava limpo e de roupas novas, pareciam minhas roupas de soldado romano, mas com tons mais claros e brilhantes. O amigo ancião, que ainda não havia dito seu nome nem de seus familiares, estava ao meu lado e me acompanhou segurando pelo braço. Passos vacilantes, fui levado a uma clareira que me parecia familiar, pássaros diversos cantavam e pequenos animais estavam no chão a olhar para uma pedra ou conjunto de pequenas pedras numa pequena elevação.
O velho senhor me disse que já haviam se passado diversos anos daquela ocorrência infeliz, mas que felizmente eu havia despertado e me perdoado a mim mesmo, coisa que eu não compreendi no momento, somente anos depois.
Ao chegar aquela clareira, percebi a figura luminosa, daquele jovem pregador de Cristo, com o rosto mais envelhecido, mas ainda reconheci aquela alma jovem. As palavras alegres ainda falavam de amor, e das coisas do Cristo, parecia estar falando para todos nós, centenas de pessoas, até para os animais que também lhe escutavam atentamente. Era João, aquele que mais tarde seria reconhecido como João o Evangelista, que na ilha da Patmus receberia do alto as revelações do Apocalipse.
Desta vez, o olhar dele cruzou diretamente com o meu, e como que atingido por um raio, comecei a chorar e nunca mais esqueci aquele olhar amoroso, que tudo me disse sem nada me falar, que tudo me explicou sem nada me dizer.
Talvez para vocês encarnados ele seja reconhecido e mais comumente chamado de Francisco de Assis, mas para mim será para sempre João, simplesmente e maravilhosamente João.


Inspirado por um ex-Soldado Romano

by Luis & Elisa

FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas histórias ou estórias são ficção[1], qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!

[1] “É claro que estou prestes a expressar um ponto de vista, com o qual, muitos espíritas não concordariam. Mas, facto é que a realidade de Voltz é análoga à de inúmeros autores que, na atualidade, são considerados escritores de ficção, de fantasia. Faz-se necessário abordar certas verdades, fora do âmbito espírita, atingindo alvos distintos daqueles que estão na mira dos escritores do meio espiritualista. Os Imortais, que nos dirigem de mais amplas dimensões, nos incumbiram de escrever numa linguagem apropriada a certo universo literário — digamos, mais materialista, que atraísse, também, determinado círculo de indivíduos que não têm acesso ao vocabulário e à mensagem espírita ou, simplesmente, não sintonizam com a forma religiosa de ver alguns problemas da vida.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.

sábado, 14 de março de 2015

CARINHO E ALIMENTAÇÃO ESPIRITUAL

A MATA REVELA SEUS SEGREDOS – Parte 2

CARINHO E ALIMENTAÇÃO ESPIRITUAL


A manhã estava linda, o sol brilhando alto no céu junto ao canto das cigarras já indicava o calor que se aproximava. A paisagem acolhedora do Trilha era um convite a reflexão e recolhimento espiritual, afinal ficara compreendendo melhor a intensa atividade espiritual que ocorria nestas paragens na contraparte etérea da localidade física.
Novamente Marabô paciencioso envolvia-nos em seus fluidos tranquilizadores, visando despertar-me no íntimo acontecimentos últimos vividos e aprendidos nos momentos do desdobramento astral.
“Meu caro, é preciso tranquilidade, uma certa quietude mental para que a tarefa seja facilitada. Recorda... recorda... em um, dois, três...“

E aplicando contagens pausadas e firmes, foi-me induzindo a um estado de torpor e um pouco de apatia...
“Acorda meu fio... abre de vez esses olhos.. tá andando de olho aberto mas dormindo por dentro criatura.”

Era a vovozinha carinhosa que me abraçava, apertando meus braços na altura do cotovelo, com uma intencionalidade que não percebia com clareza.
“Combinei com vosmice[1] de contar um pouco mais sobre o trabalho de acolhimento espiritual que realizamos aqui no Trilha, não é mesmo? Pois bem, nega véia não se faz de rogada não e vai contar tudo tim-tim por tim-tim, como os filhos falam na terra.
Marabô já tinha te explicado da convivência simultânea, em várias faixas vibratórias diferenciadas, que ocorrem aqui neste lugar sagrado. Para os mais entendidos ou melhor esclarecidos espiritualmente, existe o posto de socorro e transporte, com aquela triagem que o filho já é sabedor.
Mas ainda permanecem cristalizados no passado, larga faixa de espíritos presos a acontecimentos infelizes desta região. Aqui na região sul tivemos um dos capítulos mais tristes vividos da história da escravidão em nosso país. As Charqueadas[2] representavam o que de pior poderia acontecer para os negô que vieram parar aqui nessas terra do cruzeiro.
O frio intenso, com a humidade que corrói os ossos dos mais velhos, aliado ao sal grosso empregado no processo de elaboração do charque, criavam a combinação perfeita para o sofrimento do meu povo. Ainda mais quando não era potencializado pelos maus tratos dos sinhô e senhoras que não eram muito de deitar mel em nossas feridas não...”

Com minha cabeça entre as mãos da vozinha, junto aos carinhos e afagos de cafuné, um influxo de pequenas imagens era projetado na córtex visual na estrutura astral de meu cérebro. Não sei se pelas mãos ou pelo olhar da vó, as imagens iam ficando mais nítidas.
Via casarões antigos, com espaços de pequena altura que ficavam  abaixo no piso de madeira das casas. Era um tipo de senzala para um grupo seleto de escravos, “que tinham o privilégio” de dormir todas as noites abaixo do assoalho da casa dos seus senhores proprietários. O chão era de barro batido e socado, limpo para não exalar mau cheiro que pudesse ser sentido pelos patrões, mas húmido e enregelante como uma geladeira nas noites frias gaúchas.
Aliás, o propósito maior também era de que ao terem os seus escravos dormindo abaixo do assoalho de madeira grosso, o calor gerado pelos corpos dos escravos, servisse para minimizar o frio das casas, ajudando a aquecer os quartos dos senhores e senhoras proprietários que ficavam na parte de cima.
Inverno ou verão, a rotina de pegar o gado, fazer o abate e iniciar o processo de salga das fatias de carne cortadas adequadamente, transformavam o charque numa peça de consumo da época, mas elaborada com muito sofrimento animal e humano.
Com roupas escassas ou inadequadas, tendo de entrar na lama ou na mata, os escravos acabavam tendo de despachar os restos dos animais e lavar utensílios as margens dos arroios da região, em especial, do arroio Pelotas e canal São Gonçalo, onde se localizavam as principais e maiores propriedades de charqueadas da região sul do estado.
“Pois é meu filho, imagine as barbáries que muitos sinhôs não cometiam nestes tempos, contra negros e negras que consideravam como sendo de sua posse. Não estranhe então que muitos dos que acabavam desencarnando sobre o açoite, ou pelas feridas mal curadas, acabassem com o coração cheio de ódio cruzando a fronteira dos dois planos, e indo aportar aqui no maior desequilíbrio mental e emocional[3].
As escravas também não escapavam de serem exploradas, muitas vezes sexualmente, e não raro tínhamos jovens mães sendo assassinadas e jogadas ou afogadas nos rios para esconder o abusos de seus senhores ou familiares e empregados, algumas a mando das esposas brancas inconformadas com a traição de seus hômi.
Como é do conhecimento do filho, aqui no Trilha acabou se estruturando um Quilombo, onde os negô que conseguiam fugir para cá, procuravam ter uma vida livre e recuperar suas forças.
Mas quem dera o coração de todos os negô que aqui chegassem conseguissem se libertar também do ódio que nutriam em seus corações, muitos mesmo após aqui chegados ainda na carne, organizavam expedições para resgatar alguns familiares que tinham ficado, mas também para empreender processos de vingança contra seus antigos senhores.
Não raro, conseguiam raptar filhas e crianças das fazendas e charqueadas, cometendo sandices tão graves quanto as quais foram vítimas. Muitos enlouquecidos ao descobrirem que seus familiares haviam sido mortos ou castigados pela sua fuga, voltavam todo o seu ódio e descarregavam no primeiro branco que aparecesse.
E o moleque sabe que ódio banhado com sangue da vingança não alivia o coração de ninguém. Imagine ainda se eles traziam pra cá, pra esse lugar sagrado, meninas e mulheres para “servirem” a eles aqui no Quilombo.
Teve um período onde a liderança de uma matriarca do Quilombo, que era a consagrada para entrar em contato com os sagrados Orixás, impediu que essas escravas brancas aqui ficassem, mandando elas serem devolvidas a suas famílias. Mas teimoso, não tem cor não meu filho..., e muitos negô acabavam levando essas mulheres para um lugar no mato e guardavam elas escondidas lá, para usarem e maltratarem. Episódios tristes meu filho amado, que só serviram para aprofundar as chagas morais de espíritos em resgate, que todos somos com a misericórdia de Olorum.”

As cenas eram fortes, vi mulheres brancas e mestiças de roupas rasgadas, sujas e esquálidas, em claro sinal de fome e maus tratos. Muitas de olhos enlouquecidos de pavor, pareciam correr por entre os matos, algumas já sem seus corpos físicos... e alienadas de sua situação.
A organização do Quilombo parecia ter evoluído com o tempo, pois o local era bem protegido pelo relevo da geografia e pela correnteza forte de pequenos rios, que faziam frente nos pontos de acesso a região.
“A véia tá contando esses mistério pra vosmicê para ajudar a compor o pano de fundo para a realidade espiritual que ainda continua se estruturando e em vigência nalgumas faixas vibratórias deste santuário.
Você sabe que o ódio é capaz de paralisar a criatura no tempo, quando ele é extremado é capaz de criar um ciclo contínuo dos acontecimentos infelizes, como num filme que recomeça automaticamente após ter chegado ao final. As criações mentais destes espíritos revoltados (brancos, negros e mestiços) criam a atmosfera psíquica que é capaz de deixá-los séculos paralisados nas mesmas cenas e ocorrências[4].
Tem espírita e umbandista que acha estranho que ainda existam espíritos presos nas faixas da grandes guerras mundiais que assolaram este planeta azul lindo de Oxalá. Imagine se nega falar que ainda existem escravos presos no ciclo mental doentio do período da escravidão dos séculos já passados. “Quem num quisé acredita que num acredite”, mas é verdade que nem eu só sei.
Desta forma, quando conseguimos reunir uns poucos de cada vez, para sair desta faixa, nós organizamos eles em pequenos grupos. Não adianta violentar essas consciências frágeis ainda presas no ódio, eles já sofreram violência demais para que o ácido da verdade ferina e descaridosa lhes aprofunde as chagas mal curadas. O amor nesse caso é o remédio maior e mais urgente. O esclarecimento só será útil se regado com o amor da compreensão e da paciência. Aqui arrogante não tem vez no trabalho da caridade, e os pseudosábios tem lugar garantido com sua sapiência noutras atividades, mas não aqui neste recanto de recuperação e reajustamento espiritual.
Esses pequenos grupos são selecionados pela triagem de grupos mais entendidos que a nega véia aqui, atualmente estou com um grupo de cinco criaturas que não enxergam ninguém mais do que a eles mesmos e, por misericórdia para comigo, enxergam a mim.
Hehe... assim mesmo, véia, gorda, meia coxa de uma perna, rengueando e com essas roupas encardidas de saco, para eles se sentirem à vontade com essa nega que carrega ainda muito fardo pesado no próprio coração.
Às vezes a luz muito radiante ofusca os olhos de quem passou muito tempo da escuridão do ódio e da incompreensão meu menino. Desse jeitinho que tu e tua nega me percebem, é que eu vou me achegando deles. Transbordando o meu amor, meu dó verdadeiro por essas criaturinhas, tão necessitadas de quem lhes trate as ferida e lhes alcance um pouco de comida[5] e agasalho.
Esses pequenos grupos, são incapazes de enxergar as outras faixas vibratórias que vibram nesse momento aqui no Trilha. Como foram magnetizados com carinho por nossos chefes aqui, eles mantém o seu frágil equilíbrio se reunindo em nosso pequeno grupo de andarilhos e maltrapilhos.
Não tenho casa ou tenda, faço abrigos improvisados com eles, dormimos muitas vezes em meio a natureza, na volta de uma fogueira ou debaixo de uma árvore mais frondosa, e quando o pai criador nos brinda com uma lua e céu estrelados, costumo contar minhas estórias olhando o céu de figada (como diz tua amada) coalhada das estrelas de onde viemos.
Mas não é fácil não, dada ao estado mais precário, o tônus vibratório mais denso dificulta para que eu possa plasmar ou utilizar dos alimentos produzidos na faixa vibratória de nosso posto de socorro e transporte. Os alimentos ali são mais sutis, de uma tessitura que não é perceptível para este pequeno grupamento.
Valho-me então da ajuda dos elementais, das doações de ectoplasma de nosso amigo encarnado proprietário deste local, e dos grupos de boa vontade que volta e meia vêm ao Trilha para realizar atividades espirituais.
Com os recursos limitados que se conseguem, nós plasmamos os alimentos na densidade adequada para que os mesmos sejam realmente percebidos por estes pacientes em recuperação. Com isso eu acabo não desperdiçando nenhuma oportunidade, toda energia amorosa é bem vinda e útil nesta seara aqui do Trilha.
Aproveito pessoas de sensibilidade mediúnica mais afeita ao transporte e higienização espiritual, e faço pequenas aproximações, um pequeno “choque anímico[6]” mais por aproximação no contato com a aura dos médiuns, do que por um processo de incorporação acentuado. Muitos auxiliam dessa forma sem o saberem, hehe...  talvez com um leve arrepio ou tontura, mas que nega véia logo em seguida ajuda, dando aquela movimentação de fluídos, para dispersar alguma coisinha parada e pros filhos não se sentirem mal depois ... hehe!”

A cena que me era mostrada agora, era reveladora, vi uma roda de pessoas alegres, conversando alegremente e rindo, tomando aquele chimarrão característico e petiscos. Vi a vozinha trazendo um pequeno espírito infantil, um mulatinho magrinho e ossudo, com os olhos grandes e sorrindo. Observei a vó abraçando o moleque e aproximando ele da aura de uma das moças encarnadas, por traz, como se fosse uma janela para ser debruçada. Notei que a moça começou a rir um pouco mais intensamente, e ficar com as bochechas rosadas.
Claramente, num processo de amplificação das emoções psíquicas do momento. Não dava para saber se o riso era da piada contada ou da alegria daquela criança magrinha em ser acolhida na tessitura física daquela moça robusta.
O resultado foi lindo de se ver, pequenas manchas esbranquiçadas na pele do menino, como que por encanto estavam desaparecendo, e quando a vozinha suavemente puxou ele pelos ombros para trás, a pele estava totalmente recuperada e achei ele até mais gordinho.

“O filho viu como funciona, não tira pedaço de ninguém e foi autorizado pelos maiores que dirigem este local. Na verdade, aquela moça é médium em potencial, já trabalha com sua mediunidade semanalmente, e de bom grado, ainda que de forma inconsciente, concordou com a aproximação fluídica. Ambos se beneficiaram, os fluídos mais densos dela também foram manipulados por técnicos nossos do astral[7], que o filho não conseguiu perceber no momento, e até o ectoplasma dela foi renovado. Água parada fica estagnada e estraga, quando a água flui, se renova, e o fluxo da vida ganha mais intensidade. Com o ectoplasma o processo é o mesmo. Tem muita enfermidade disfarçada de fluído estagnado pelo não uso. Ah! Meu Deus, quanto médium curador que anda dando cabeçada por ter seus recursos fluídicos paralisados na estagnação, e quanto poderíamos fazer por eles, ao trocar o velho pela água nova da caridade, em forma de benção fluídica[8].”

Olhando melhor a cena, percebi que uma luz mais brilhante, ainda que sutil, irradiava da aura da moça que participou daquele processo espiritual. Pensei em quantas oportunidades de trabalho temos e teremos, desde que a gente conserve nosso coração cheio de bons propósitos e disponibilidade para servir.
Como se o filme fosse avançado, ou trocando a cena para outro contexto, percebi a vozinha preparando como que um fervido[9], parecia algo como uma grande panela de barro em cima de uma fogueira, escorada por pedras e outras coisas. Pequenas tigelas de barro eram usadas para servir a sopa, mas percebi que o caldo tinha pedaços grandes de várias tonalidades[10], não era só água como aquele caldinho servido naquele hospital, ao André Luiz doente, no filme do Nosso Lar.
A véia já te explicou meu filho, que estes queridos que são aqui reunidos para ficar sob os cuidados da nega véia, precisam de fluidos mais densos e energéticos para um recuperação mais rápida de seus corpos espirituais.
Décadas, e até centenas de anos, em pleno ódio animalizante, causaram alterações profundas na tessitura do períspirito desses filhos. Muitos perseguidos, como capitães do mato, que caçavam escravos, após serem supliciados por décadas, precisaram até ser infantilizados, ou seja, tiveram sua forma perispiritual reduzida para crianças, com duplo objetivo: primeiro para lhes dar uma trégua nas lembranças das ações infelizes, pois a memória também é regredida ou “despolarizada” para dar paz de espírito aos gritos de ódio que ecoavam em suas mentes; segundo para que seus algozes não conseguissem “por enquanto” detectarem suas presenças ou reconhecê-los, alguns até foram ..hehe... escurecidos para ficarem parecidos com neguinhos, e trazidos para cá, para receberem a benção da caridade no mesmo local onde buscaram durante a encarnação muitos escravos fujões... hehe... eta sabedoria divina e misericórdia sem fim daquele pai lá de cima!

Rindo gostosamente, vi a vó saindo com seu gingado, pois sua cintura grande e aquela perna arrastando despertavam uma compaixão tão grande quanto aquela que nascia em nossos corações com a alegria do seu abraço e olhar.
Talvez alguém se pergunte, mas porque ela ainda está mancando, ou passando trabalho, dormindo ao relento junto com espíritos endividados e em andrajos? Eu só sei que na sabedoria sem fim daquele coração acostumado as aflições da vida, com certeza, foi a forma que ela encontrou para despertar uma forte empatia naqueles outros seres sofridos, que enxergam nela uma igual a eles, mas que reúne forças, sabe lá de onde, para amar-lhes todas as chagas e nódoas morais, sem nojo ou julgamento. Na certeza, de que “o amor cobre a multidão de pecados”.



Inspirado por uma Vó do coração...

 by Luis&Elisa


FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas histórias ou estórias são ficção[11], qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!




[1] É a segunda pessoa do singular, termo usado no Brasil colonial que caiu em desuso. Termo foi substituído por "Você". Vosmecê é a contração de vossemecê, forma antiga de você ou vocês.
[2] “A consolidação das charqueadas, grandes propriedades rurais de caráter industrial, só se dá no século XIX, às margens dos arroios Pelotas, Santa Bárbara, Moreira e canal São Gonçalo. O gado, matéria-prima, era proveniente de toda a região da campanha rio-grandense, era fruto da multiplicação de exemplares trazidos pelos espanhóis para a Banda Oriental no início do século XVII. […] As charqueadas tinham em média 80 escravos […] Em 1820, eram 22 charqueadas (depoimento de Auguste de Saint-Hilaire) e, em 1873, 38. […] O número de abates, num total de 400 mil cabeças de gado por ano. […]A insalubridade do ambiente fará com que o núcleo urbano diste 6 km do núcleo fabril. A mão de obra escrava encontrará no trabalho do charque seu maior flagelo. […]”. Fonte Wikipedia
[3] Trazemos o exemplo mostrado pelo orientador de André Luiz, num caso de possessão completa, por um espírito vítima da escravidão. “– Não desejamos forçá-lo, meu irmão – acentuou o amigo com serenidade evangélica –, tranquilize-se! Enquanto alimentar propósitos de vingança, será castigado por si mesmo. Ninguém o molesta, senão a própria consciência; as algemas que o prendem à inquietude e à dor foram fabricadas pelas suas próprias mãos!
– Nunca! – bradou o desventurado – nunca! E ela?
Fez acompanhar a pergunta de horrível expressão e continuou:
– O senhor que prega a virtude justifica a escravidão de homens livres? Acredita no direito de construir senzalas para humilhar os filhos do mesmo Deus? Esta mulher foi perversa para nós todos. Além de meu esforço vingador, vibram de ódio outros corações que não a deixam descansar. Persegui-la-emos onde for.
Esboçou um gesto sinistro e prosseguiu:
– Por simples capricho, ela vendeu minha esposa e meus filhos! Não é justo que sofra até que nos restitua? Será crível que Jesus, o Salvador por excelência, aplaudisse o cativeiro?” André Luiz – “Missionários da Luz” – Psicograf. Francisco Cândido Xavier/6FEB.
[4] “Reunidos tais Espíritos pela lei da correspondência vibratória, criam seus infernos, onde todos participam do sofrimento de todos, pois as cenas gravadas no espaço, dos diversos tipos de suicídios, mais os assustam e atemorizam. O mesmo acontece aos criminosos, aos avarentos, aos portadores de viciações várias. Yvone Pereira nos relata em seu livro, Devassando o Invisível, que visitara em desdobramento, cerca de dez entidades em pequeno e miserável compartimento, em promiscuidade chocante. Essas entidades enfermas, conscientes de suas culpas, cercavam-se de visões por elas criadas no ambiente, que consistiam em lutas corporais, assaltos, seduções de menores, roubos, assassinatos, obsessões e suicídios.
O solo do compartimento apresentava-se encharcado de sangue e humores fétidos. Mesmo a porta permanecendo aberta, não conseguiam fugir, por terem que passar pelo terreno adiante, onde viam erguer-se da lama sanguinolenta, mãos humanas súplices, cabeças desgrenhadas, olhos aterrorizados, cadáveres estirados, braços, pernas, enfim, uma visão macabra que nenhum filme de horror, por mais assustador, conseguiria exprimir com fidelidade.
Uma velha negra (destaque nosso) que velava por tais entidades, ao servir-lhes comida, repasto ornado de legumes e hortaliças, era tomada de imensa piedade, quando estes repudiavam os pratos, atirando-os à distância, no que choravam e se lamentavam. Por ação de suas mentes viciadas, abrigando as visões dos quadros deprimentes dos quais foram autores, ao olharem os pratos, imprimiam neles as suas criações mentais de orelhas, línguas, olhos, corações, pés, postas de carne humana, em substituição aos legumes e hortaliças, criações mentais da velha guardiã.
A médium, em conversação com a negra (destaque nosso), ouve a seguinte afirmativa: ‘Todo o ambiente que distingues aqui, minha irmã, excetuando-se a cozinha, é criação mental vibratória destes dez criminosos’.” – Luiz Gonzaga Pinheiro – “O períspirito e suas modelações” – Editora EME.
Fiz os destaques no texto, pois só tive acesso a esse livro uns seis meses depois das primeiras experiências mediúnicas com essa vozinha carinhosa, que anonimamente faz trabalho semelhante ao relatado na presente obra citada. O amor incondicional de nossos Pais e Mães Velhas cria ilhas de caridade nas regiões umbralinas profundas ou próximas à crosta terrena.
[5] “Em poucos minutos, verifiquei, admirado, a necessidade de alimento.
Não experimentava a aflição dos estômagos famintos da esfera carnal. Sentia, no entanto, determinado enfraquecimento que sabia, de antemão, sanável pela ingestão de algum recurso líquido.
Minha filha compreendeu o que se passava, porque, daí a instantes, me trazia pequeno recipiente com certo suco de plantas de minha nova moradia.
Sorvi-o com alguma dificuldade, nele encontrando delicioso sabor.
A anemia cedeu como por encanto. “ – Irmão Jacob – “Voltei” – Psicograf. Francisco Cândido Xavier/FEB.
[6] Na comunicação física (o corpo do médium como veículo) o perispírito do médium encarnado absorve parte dessa energia cristalizada, diminuindo-a no Espírito, e ele, por sua vez, receberá um choque do fluido animal do instrumento (choque anímico – destaque nosso!), que tem a finalidade de abalar as camadas sucessivas das ideias absorvidas e nele condensadas. [...]
Quando um Espírito de baixo teor mental se comunica, mesmo que não seja convenientemente atendido, o referido choque do fluido animal produz-lhe alteração vibratória melhorando-lhe a condição psíquica e predispondo-o a próximo despertamento. No caso daqueles que tiveram desencarnação violenta — suicidas, assassinados, acidentados, em guerras — por serem portadores de altas doses de energia vital, descarregam parte delas no médium, que as absorve com pesadas cargas de mal estar, de indisposição e até mesmo de pequenos distúrbios para logo eliminá-las, beneficiando o comunicante que se sente melhor... Eis porque a mediunidade dignificada é sempre veículo de amor e caridade, porta de renovação e escada de ascensão para o seu possuidor.” – Manoel Philomeno de Miranda – “Trilhas da Libertação” – Psicograf. Divaldo P. Franco/FEB.
[7] A etapa inicial do nosso trabalho coroa-se de bênçãos [...] Desejávamos produzir um choque anímico em nosso irmão para colhermos resultados futuros [...] A partir daquele momento, o Espírito passou a experimentar sensações agradáveis, a que se desacostumara. O mergulho nos fluidos salutares do médium propiciou-lhe uma rápida desintoxicação, modificando-lhe, por um momento embora, a densa psicosfera em que se situava.– Manoel Philomeno de Miranda – “Nas Fronteiras da Loucura” – Psicograf. Divaldo P. Franco/FEB.
[8] “Não ignora o amigo que, do mesmo modo que o médium, pelo perispírito, absorve as energias dos comunicantes espirituais que, no caso de estarem em sofrimento, perturbação ou desespero, de imediato experimenta melhora no estado geral, por diminuir-lhes a carga vibratória prejudicial, a recíproca é verdadeira [...] Trazido o Espírito rebelde ou malfazejo ao fenômeno da incorporação o perispírito do médium transmite-lhe alta carga fluídica animal, chamemo-la assim, que bem comandada aturde-o, fá-lo quebrar algemas e mudar a maneira de pensar[...]“ – Manoel Philomeno de Miranda – “Loucura e Obsessão” – Psicograf. Divaldo P. Franco/FEB.
[9] “Vi os servidores do Posto distribuírem pequenas porções de alimento líquido e medicação bucal, em profundo silêncio. Em seguida, forneceram reduzidas quantidades de água efluviada aos infelizes, com exceção, porém, de muitos que pareciam preparados a receber, tão somente, caldo e remédio. Dois terços dos quatrocentos abrigados em tratamento receberam passes magnéticos. Alguns poucos receberam aplicações do sopro curador.“ – André Luiz – “Os Mensageiros” – Psicograf. Francisco Cândido Xavier/FEB.
“Terminada a oração, chamou-nos à mesa a dona da casa, servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos. [...] não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.” – André Luiz – “Nosso Lar” – Psicograf. Francisco Cândido Xavier/FEB.
[10] “Quanto à alimentação, apesar de o períspirito ser portador do sistema digestivo completo, bem como do sangue que corre nas veias e artérias, impulsionado pelo coração distribuindo substâncias vitais, ela não se faz de maneira análoga para todos os Espiritos.
Os recém-desencarnados que possuem o hábito da alimentação pesada, tais como vísceras, caldos gordurosos, pastosos e derivados, sofrem intensa necessidade de tais alimentos, e os recebem; só que fluídicos, satisfazendo assim seus apetites, aliviando o sofrimento imposto pela fome, que não se vê saciada com alimentação mais sutil. Apesar de não mais existir o corpo físico, exige o alimento igualmente físico, portanto proteínas, glicídios e sais minerais, cuja função é fornecer as calorias necessárias à massa do corpo suprindo suas exigências plásticas e energéticas, essa dieta alimentar impõe-se por uma necessidade psicológica relacionada ao volume, peso e sabor, correspondente ao regime outrora praticado.
Outro tipo de alimentação mais refinada, usada por aqueles que procuram libertar-se dos hábitos terrenos, é formada por sucos etéricos de frutas, caldo de essências reconfortantes e água misturada a elementos magnéticos. Esses alimentos são utilizados nos postos de socorro e servem aos Espíritos que descem aos charcos de dor em missões de resgate, devido às condições do meio não possibilitar inalação de princípios vitais da atmosfera através da respiração. No entanto, o tipo de alimentação do períspirito que conseguiu adaptar-se ao meio astral é o da osmose magnética; esse método consiste na absorção e eliminação  do magnetismo ambiental. Pelos poros, utilizando produtos da Natureza, o períspirito se abastece, podendo excretar os resíduos formados, pela exsudação epidérmica ou pelas vias excretoras normais, sem o excesso de sólidos e líquidos dos excrementos comuns aos encarnados. Substituindo a quantidade pela qualidade, e sendo os elementos absorvidos altamente imponderáveis, estes  são assimilados quase que integralmente, deixando escassos resíduos a serem eliminados. .” – Luiz Gonzaga Pinheiro – “O períspirito e suas modelações” – Editora EME.
[11]Muitos escritores da chamada, ficção histórica, da ficção científica e da futurâmica espacial penetraram na realidade do espírito através da intuição e trouxeram elementos preciosos para o enriquecimento do pensamento espiritual. Ou seja, alguns autores vivenciaram certas experiências, através de sonhos, desdobramentos e êxtase e, após essas vivências fora do corpo ou em estado alterado de consciência, interpretaram e colocaram no papel o resultado de suas observações.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.

sábado, 7 de março de 2015

CATAMARÃ OU NAVIO NEGREIRO?



CATAMARÃ OU NAVIO NEGREIRO?

Bahia! Terra da cultura negra e de tantos detalhes turísticos que encantam aos olhos de quem os vê.

Encanta aos olhos de quem vê e do que não se vê também!
Nessas andanças da vida fomos “premiados” com uma querida lição ao término de uma viagem de férias.
Nesse mesmo dia tivemos a oportunidade de ser acalentados por uma vovó muito querida, que preferiu ajudar dando-nos uma aula de história...
Era um belo dia de sol, bonito que nem sei. Regressávamos de bonita viagem a uma ilha paradisíaca no sul da Bahia e a dúvida pairava sobre o grupo familiar de como seria a volta ao continente. Será que seria melhor utilizar o trajeto Ferryboat + Van + Ônibus, ou seria melhor pegar um Catamarã? Sem dúvida o Catamarã era a opção mais rápida reduzindo o tempo do trajeto em mais de duas horas.
Mar bonito, azul meio esverdeado ou verde meio azulado, coisa linda de se ver! Ao amanhecer o sol estava brilhante e o céu dos mais limpos. Está decidido, vamos por mar, de Catamarã!
Nada melhor do que conhecer a casa de Mãe Iemanjá. A grande Calunga! Odociaba[1], minha mãe!
E fomos felizes e faceiros embarcando um a um...
Porém, aquele friozinho na barriga apareceu com uma risadinha típica e conhecida de nossos ouvidos espirituais “eh, eh!”.
Para quem não conhece, Catamarã[2] é uma embarcação leve e fica como se fosse apenas um graveto boiando nas ondas, ao sabor delas. Tem que ser muito valente para estar ali, ou o mar tem que estar um espelho para que não balance tanto.
E qual foi nossa surpresa naquele dia que tinha raiado ensolarado, logo após que o barco saiu do atracadouro, começou a ventar muito, com todos os escolhidos da incrível lição.
Já dá para imaginar o que aconteceu, a maioria de nós não teve fôlego e o enjoo tomou conta, sem chances de tomar aquele “Dramin” preventivo, reza, benzedura ou seja lá o que fosse.
Depois de muito vomitar e já não ter mais forças, prostrei-me ao chão da embarcação numa parte que ficava exposta ao sol e, principalmente, ao vento.
Já estava tão cansada e desfigurada de tanto vomitar, e pus-me a reclamar para Deus da desagradável situação, e do porque do destino ter me pregado tamanha peça.
Rezava e reclamava e já cansada, adormeci sentada, escorada numa lateral da embarcação.
Nesse meio tempo, entre a vigília e a madorna, pude sentir uma brisa reconfortante, que refrigerou minha alma, deixando-me leve para perceber a doce presença de uma vovó muito especial para mim, a Vó Sabina!
Com o seu jeito todo especial, ria tanto de mim de uma maneira tão peculiar que não senti como deboche ou outra situação do gênero.  Vinha tanto carinho e amizade daquele ser, que me senti honrada por estar passando por aquela situação.
Tudo aquilo valia a pena, só por ter sentido seu pensamento!
Depois da vó Sabina dar boas risadas, pude sentir seu pensamento me dizendo algumas coisas. E foi mais ou menos assim...
“Filha, não reclama não. Isso que você tá passando, não é nada não! Tem coisa muito pior...
Sabe, vou te contar uma coisa, meus ancestrais fizeram uma viagem parecida com essa, só que em condições muito piores...”

Nesse instante a vó tocou em minha “mente” e em segundos pude ver toda uma história de dor, sofrimento e de total abuso de poder e soberba do ser humano.
Enxergava um navio negreiro[3], em pleno Oceano Atlântico, abarrotado de negros no fundo do navio.

Lá estavam mulheres, homens em total degredo subumano.
Via-lhes os olhos em meio ao pavor, junto daqueles que conheciam e muitos outros que nunca tinham convivido. Pude sentir a dor, o mal estar, o mal cheiro em que se encontravam.
O pior foi sentir a dor na alma que eles sentiram quando foram arrancados de suas casas, de suas pátrias, como se fossem animais. Sem nenhum poder de escolha naquela situação humilhante.
No porão do navio, percebia os cadáveres em decomposição[4] junto a corpos vivos, mas como de zumbis vivos, famintos e parecendo sem alma.
Foi uma sensação tão ruim, um misto de dor, revolta, culpa e vergonha por ser branca, de ser descendente de pessoas que fizeram isso num passado nem tão longínquo assim.
Visualizei através dos olhos de vó Sabina, mostrando-me uma parte de sua história, de seus ancestrais. E naquele olhar não tinha raiva, ódio, nem rancor e nem ao menos mágoa.
Tinha um olhar de alma iluminada, que passou por tanta coisa na vida e que compreendia a situação de sermos aprendizes na jornada terrena.
Eu tive o privilégio de passar por isso e agradeci a Deus e a esta alma bondosa, pois foi me dado uma oportunidade única de aprendizado. Coisas que não se aprende na aula de história, mas nas aulas da vida.
Foi tudo tão rápido na minha mente, mas no tempo real se passaram duas horas e meia de viagem, foi quando a vó me disse:
“Acorda filha, já chegaste. Agora desce e não reclama mais, porque tem coisa muito pior.
Aqui tá o meu povo, esse é o meu povo dessa terra bendita, mas que traz essa história forte. E ainda assim, aprendemos a amar essa terra abençoada, que nos trouxe muita liberdade, sim!
Aporta filha e tudo vai ficar bem.”

Quando cheguei ao porto e coloquei meus pés no chão, em terra firma, dei graças à Deus, e por nenhum segundo estava com enjoo ou com qualquer outro desconforto.
Ao olhar para trás para agradecer o seu amparo, pude vê-la indo embora com seu gingado[5], vestida de branco, com sua saia simples e alva, cantarolando...
“Vovó Sabina é nega lavadeira,
Lavadeira sim sinhô,
Lava roupa de sinhá,
Mas minha mãe é Iemanjá!”


Inspirado por Vó Sabina

 by Luis&Elisa


FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas histórias ou estórias são ficção[6], qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!




[1] Odoia ou Odociaba – saudação a Orixá Yemanjá e significam Mãe das águas.
[2] Catamarã (do tâmil kattumaram < kattu, 'ligadura', + maram, 'pau') é a designação dada a uma embarcação com dois cascos (vulgarmente chamados "bananas"), com propulsão à vela ou motor, que se destaca por sua elevada estabilidade e velocidade em relação às embarcações monocasco. Fonte Wikipedia.
[3] O navio negreiro - ou "tumbeiro" - foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11 milhões de africanos para serem escravizados na América. Em caravelas ou barcos a vapor, europeus, americanos e até mesmo negros se metiam no "infame comércio". Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25 anos. Isso mudou nos últimos anos do tráfico. "Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres grávidas", disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao Parlamento Britânico, em 1840. Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro da época da escravidão?” – Revista Mundo Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[4] Os traficantes dividiam o porão em três patamares, com altura de menos de meio metro cada um. Presos pelos pés, mais de 500 escravos se espremiam deitados ou sentados. "Ficavam como livros numa estante", disse o ex-traficante Joseph Cliffer. Para a higiene bucal, os escravos faziam bochechos com vinagre. Para limpar o corpo, só podiam se enxaguar duas vezes durante toda a viagem de meses. Muitos padeciam de graves infecções oculares e intestinais, e os que não morriam chegavam moribundos ou cegos. Tâmis Parron – “Como era um navio negreiro da época da escravidão?” – Revista Mundo Estranho – Edição 99 – Editora Abril.
[5] “Alguém perguntou por que o espírito João Cobú se manifestava assim, como um preto-velho, sentado no chão, com as pernas de lado, a voz potente e forte, tão diferente do médium de que se utilizava. Argumentava que não era necessário a nenhum espírito apresentar-se daquele modo; não havia motivos para esta caricatura tão rudimentar, arcaica talvez, própria de religiões apegadas a rituais e maneirismos pueris, segundo defendia.
Pai João ouvia atento.
Por que motivo escolher a aparência de um ancião se ele era espírito, e espírito não é idoso nem jovem é apenas espírito. Após alguns instantes em silêncio, Pai João disse:
— Meu filho, pelo que eu saiba o espírito já esclarecido pode se apresentar da forma que desejar para estar com os filhos da Terra. Cada um escolhe a vestimenta que mais lhe agradar. Não há por aí espíritos que se mostram como irmãs de caridade, padres, orientais, médicos e tantos outros? Por que o preconceito contra o velho ou a vovó? Será apenas porque a gente se apresenta como negro, ex-escravo? Isso por acaso desmerece a mensagem que trazemos? Por que não repelir espíritos que se manifestem como freiras, indianos ou doutores? Por acaso meu filho pensa que do lado de cá da vida só há diploma de médicos e eclesiásticos?
Pai João prosseguia:
— O problema, meu filho, é que velho não dá ibope para os médiuns e donos de centro. Mas, se além da visão do ancião e do linguajar singelo, a gente se mostra negro, aí sim: o preconceito de meus filhos fala ainda mais alto... Não há alforria que resolva; o preconceito é cativeiro pior que a escravidão. Negro, velho e, ainda por cima, morto... Nego acha que isso incomoda por causa do orgulho e do desejo que vocês têm de enquadrar tudo dentro dos padrões brancos, vamos dizer. Se é assim, meu filho, aceita o conselho de nego: vá procurar espíritos superiores, de médicos, padres e irmãs de caridade, e deixa nego trabalhar quietinho, falando com simplicidade para aqueles que não entendem linguagem complicada.
Deixa nego trabalhar, cantou Pai João.” – Pai João de Aruanda – “Sabedoria de Preto Velho” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.
[6]Muitos sensitivos, em todo o Brasil, têm tido experiências mediúnicas que comprovam a universalidade dos ensinos transmitidos de uma a outra latitude do planeta. Será que essa universalidade só é possível dentro dos limites ortodoxos do movimento espírita ou as inteligências imortais realmente se comunicam e se utilizam de intérpretes, os mais diversos, espíritas ou não: escritores-médiuns, médiuns-autores, médiuns-terapeutas, médiuns-cientistas, que não pertençam exatamente ao corpo de representantes da filosofia espírita?
Meditemos, com efeito, sobre essa realidade que supera a fantasia, a imaginação e a ficção, mas não descartemos a possibilidade de que os espíritos do Senhor não encontram barreiras para se manifestar; que grande parte do que hoje é rejeitado pelos renomados estudiosos da mediunidade e dos fenômenos espíritas, pode estar recheado de mensagens e verdades, que os médiuns missionários do movimento não aceitariam psicografar.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.