segunda-feira, 11 de maio de 2015

UM SOLDADO ROMANO COM JOÃO EVANGELISTA


Num passado remoto, numa última existência servindo a Roma, a obediência cega a regras e normas sempre fora o meu ponto forte. Como soldado sempre obedecia sem questionar propósitos e fins, por isso sempre era convocado para empreitadas diversas por meus superiores.
Acreditava firmemente que meu propósito maior era servir e proteger. Via em meus generais a sabedoria irrestrita e o poder em conduzir um povo muitas vezes ignorante e até mesmo perverso. Faço essas considerações para que os amigos encarnados possam compreender minhas reflexões e inquietações nesta imersão no passado, naquela que com certeza foi a mais marcante de minhas passagens aqui neste orbe, e que foi capaz de me redefinir como ser viajante das estrelas.
Como soldado de Roma, em posição que não me compete agora falar, pude testemunhar a passagem de nossa maior estrela nos últimos milênios, o maior Avatar de todos – o Cristo Jesus, mas para mim um testemunho de uma forma singular, quase na indiferença. Não, não tive o privilégio de ouvir a voz do Cristo, nem tocar-Lhe as vestes, muito menos de cruzar os meus olhos fracassados com aquele ser revestido de luz e amor.
Lembro, de escutar os rumores nas regiões próximas, de um homem que todos chamavam de Messias, que falava sobre as coisas do outro mundo. Nada que tocasse o meu coração obcecado e endurecido pelas batalhas sem fim, vencidas ou perdidas em nome de Roma. Não, não tive a oportunidade de viver em Roma, servia no exército romano em regiões distantes como milhares de outros homens de minha época, com um posto médio e inexpressivo para os anais da história.
Mesmo tendo escutado rumores sobre o Nazareno não me dispus a aprofundar conhecimentos sobre tal criatura, que julgava como muitos de meus colegas na época, como um arruaceiro a falar mal de Roma ou dos próprios sacerdotes Judeus, sua própria gente.
A crucificação não era algo trivial, mas também já não chamava tanta atenção como nos seus primórdios. Mas quando soube que o tal Nazareno seria crucificado, notei que a multidão reagia de forma mais intensa, os murmurinhos se alastravam com maior rapidez e despertavam discussões acaloradas, principalmente entre os judeus.
Talvez por isso, tenhamos sido advertidos por nosso superior, a sermos mais rígidos no controle do povo naquele dia, seriam três crucificações nas quais era esperada maior balbúrdia de um povo encolerizado ou revoltado. Um papel que assumira muitas vezes nas posições iniciais dentro das fileiras do exército, mas que fazia uns cinco anos que não desempenhava mais, em virtude das últimas promoções recebidas.
Mesmo a contragosto, não reclamei e busquei as informações sobre qual ponto do trajeto ficaria sobre minha responsabilidade e de quantos outros soldados ficariam próximos a mim e sob meu comando. No momento combinado, estava eu com meu pequeno grupo de nove soldados tomando conta de uma lateral da rua destinada ao trajeto, num entroncamento que saia de duas vielas em convergência, formando com um “V“ gigantesco. Minha experiência me intuía que era um ponto frágil de segurança e que se uma massa maior de cidadãos saísse do controle, poderíamos ter problemas. Resolvi assim ficar em posição mais estratégica onde poderia olhar melhor as criaturas que vinham das duas vielas. Todos nos postávamos de costas para a rua principal e de frente para o povo que já começava a se acotovelar para assistir a passagem dos condenados.
A tensão enchia o ar de uma energia incômoda, que deixavam mais ainda os meus sentidos em alerta. Por diversas vezes usamos de força para manter o povo em sua posição, pois muitos queriam invadir a via antes da passagem dos condenados. Lembro ainda de forma muito clara quando um senhor de braços magricelos e cabelos desgrenhados tentou furar a fileira de soldados e ir em direção ao outro lado, mas como estava quase na minha frente, empunhei minha lança na horizontal e empurrei com força o velhinho que foi jogado longe e caiu de costas. O incidente despertou os olhares raivosos de muitos dos que estavam a minha volta e sentia a raiva tencionar o ambiente.
Na passagem do segundo prisioneiro condenado, mesmo olhando firmemente para o povo a minha frente e cuidando a movimentação nas vielas atrás, senti algo estranho, uma vibração poderosa que por instantes fez minhas pernas tremerem. Mesmo aqueles que gritavam impropérios, naqueles poucos segundos calaram-se, para em seguida voltar a gritar. Mas era uma onda de silêncio, de desconforto, como se eu estivesse momentaneamente nu, sem roupas, despido de minhas armas e escudos.
E, pela primeira vez em minha vida, cuidando da segurança numa via de crucificação, eu olhei para trás, pois uma força me impulsionava a ver quem tinha afinal passado. Para ETERNA tristeza minha, não vi o rosto daquele SER, só via suas costas machucadas do açoite, dos que lhe flagelavam o corpo para transportar a cruz. Sim, ele ainda a carregava naquele momento do suplício, onde somente mais tarde o Cirineu compartilharia com ele o esforço final de carregar o madeiro.
Não vi o seu rosto, nem consegui gravar o tom do seu cabelo, manchado de sujeira e sangue, nenhum detalhe como tamanho das mãos ou pés, cor dos olhos, nada, absolutamente nada, ainda hoje tento recuperar algum detalhe mais específico, e tudo parece ter se apagado de minha mente, como se não merecesse ter alguma lembrança mais precisa daquele Homem.
Alguns metros sofridos acima, ainda tentava captar algo de sua fisionomia, para tentar ver se tinha cruzado com aquela criatura em algum outro momento, mas foi em vão. De repente, penso eu hoje, talvez pelo meu pensamento de curiosidade, aquele Homem para, e olha para o lado, não em minha direção, mas para o mesmo lado da rua em que estava, foi por poucos segundos, não distingui nenhum novo detalhe, não vi o seu olhar, mas tive a certeza em meu íntimo de que Ele captou ou sentiu o meu olhar indagador...
O martírio continua e eu volto rapidamente o meu olhar para o povo a minha frente, continuando a fazer o que sempre fiz, a impedir que a desordem tomasse conta dos processos de crucificação. Fiquei ali até todos terem passado e a população local ficar desinteressada. Muitos após os últimos soldados que acompanhavam os condenados terem passado, foram atrás dos mesmos, a maioria falando palavrões e xingamentos aos prisioneiros, e muito poucos, chorando em desespero pela condenação sabe lá de qual deles.
Não pensem que o episódio do quase cruzamento de olhares foi suficiente para me demover de minha posição no local, ou de me fazer sair como a turba a acompanhar o grupo até o monte do calvário. Dali, saí em companhia de outros soldados, conversando frivolidades, ainda que algo me apertasse o estômago, pensava que tivesse sido algo que comi de véspera que não estaria me fazendo muito bem.
Ainda hoje reflito, na oportunidade que perdi, não só de conhecê-Lo em vida, mas ao menos de ter ido assistir sua crucificação, ainda vivo, ou quem sabe, ainda que morto, crucificado na cruz, poderia ter divisado sua face, mesmo que com os olhos sem vida, ainda teria visto o Cristo, de quem veio para nos dar o maior testemunho de amor e perdão de nosso planeta. Mas não fiz nada disso...
Dias após a crucificação ainda ouvi os burburinhos de que o Nazareno teria voltado dos mortos, soube pelos meios oficiais de que sua tumba havia sido violada e seu corpo roubado, era a versão do governo local. Mas sabendo dos rumores, poderia ter tentado saber mais, quem sabe poderia, mesmo sem merecer, ter tido a graça de revê-Lo redivivo.
Passaram-se quase sete anos, quando informações esparsas iam chegando aos meus ouvidos, sobre os ensinamentos do Cristo, e que muito de seus seguidores estavam ainda divulgando. Muitas dessas ideias encontravam sintonia íntima, ainda que em sigilo, no meu coração, já algo cansado das batalhas e do sangue. A idade traz essa recompensa para nós, acabamos cansando do mal que ainda habita em nossos corações.
Numa das campanhas de que participei servindo a Roma, estava em um vilarejo, descansando, ou melhor, em meu horário de folga, sem trajes e após ter bebido retornava para dormir e já estava amanhecendo. Peguei uma rua estreita e vi a movimentação de pessoas cochichando, caminhando apressadas, era muito cedo e me chamou a atenção. Resolvi segui-las e chegamos a pequeno bosque, onde em cima de uma pedra, um homem jovem falava sobre os exemplos de Jesus, com expressões alegres, falava do mesmo como se Ele ainda estivesse vivo. As pessoas riam alegres com suas histórias, e eu ri também. Uma alegria profunda, uma descontração que não sentia desde a minha infância ou adolescência, descobri que o orador se chamava João, o mais jovem dos seguidores de Jesus em vida.
Não me lembro de ter visto novamente aquele homem jovial, mas ele despertou uma curiosidade em mim. Não, não tinha me tornado cristão, era ainda um soldado fiel a Roma, mas era um ser curioso...
Comecei a aproveitar as viagens em campanhas militares por lugares diversos para no anonimato, em cidades desconhecidas, encontrar os agrupamentos que falavam sobre o Cristo. Nunca tive coragem de assumir uma crença cristã ou modificar o meu comportamento, mas confesso que minhas ideias sobre justiça foram se depurando, começava a enxergar muitas arbitrariedades, não só nas autoridades romanas, mas nos meus próprios colegas de exército e arrumei algumas brigas e inimigos ao tentar coibir abusos que me irritavam pelo disparate.
Roma já tinha começado com seus espetáculos de horrores, e para saciar a sede de sangue de suas castas privilegiadas muitos circos foram montados em lugares diversos. Não só o Coliseu recebia espetáculos sangrentos onde os cristãos eram trucidados por guerreiros ou entregues a feras. Muitas outras cidades importantes tinham espetáculos em menor proporção de suntuosidade, mas não menos sanguinários e desprezíveis.
Infelizmente, o homem é capaz de golpes traiçoeiros, naquela época muitos denunciavam famílias inteiras como cristãs, somente para usurpar de seus bens ou para ficar com suas viúvas cobiçadas, acusando maridos e filhos homens como seguidores do Cristo. Muitos foram sacrificados sem serem sequer seguidores realmente do Nazareno.
Nesta época, tirava escalas de trabalho regulares na guarda das celas dos cristãos que seriam encaminhados para os espetáculos. Naquela época tinha participado de uns poucos encontros com palestras dos cristãos que se escondiam cada vez mais de Roma. Numa oportunidade vi acalorada discussão ou orientação entre um senhor idoso e seu filho, também já aparentando ser um pai de família, e aquele que parecia ser o orientador religioso daquele grupo.
A sabedoria do orientador era imensa, o pai de família perguntava como poderia converter sua esposa e filhos para os ensinamentos do Cristo, já que mesmo lhes explicando e falando do amor e da vida no Nazareno não conseguia lhes tocar as fibras da alma. O idoso lhe falava que deveria usar sua autoridade de marido e obrigar filhos e esposa a segui-lo na nova fé. Mas o abnegado orientador, falava que cada um só podia dar testemunho do que lhe brotava no coração. E que fé não se impõe, é construção individual. Aquela lucidez me cativou, não devia ser fácil viver numa família dividida pela fé.
A vida nos coloca em situações delicadas, onde somos chamados a assumir nosso verdadeiro eu. Poucos meses depois dessa cena por mim presenciada, ao passar em revista as celas com os prisioneiros, para a noite e o último raiar do sol que antecederia os espetáculos de carnificina humana, encontrei numa das celas o pai de família, ao lado do mesmo senhor idoso, e o que parecia ser toda sua família. A mulher estava a xingar e esbofetear o rosto do esposo, a lhe acusar de que morreria por uma causa que não acreditava. A cena era triste de se testemunhar, na cela apertada e deitados no chão ainda estavam dois filhos adolescentes e duas meninas, uma claramente com uns cinco ou seis anos de idade e o homem mais idoso, com o olhar perdido no horizonte. Aquele olhar ao cruzar com o meu, me deu um choque, o senhor me reconhecera, mas não falou nada, nenhum som... somente sorrira para mim.
Virei as costas e saí rapidamente, com medo de que os prisioneiros falassem e comprometessem a minha posição junto aos soldados. Eu poderia até ser condenado se soubessem que estava ouvindo preleções cristãs. Mas o que me incomodava é que a esposa bonita e aquelas crianças não eram cristãs, nem os adolescentes, pois ainda me lembrava de como brigavam com o pai pela nova fé assumida e que eles repudiavam. Isso era muita injustiça!
Alguém havia feito uma traição para aquela família, acusando injustamente a todos. Eu iria descobrir quais eram os interesses envolvidos. Saí rapidamente, cheguei a casa daquela família, naquela época já tinha descoberto que os mesmos possuíam armazém e que vendiam provisões para aquela parte da cidade. Ao chegar ao local reconheci o filho do nosso comandante com sua mulher, fazendo as vendas para os clientes e compreendi tudo, era um golpe para se apropriar materialmente das posses da família, por isso precisavam se livrar de toda a família do comerciante. Não sou ingênuo, ao ver o filho do meu comandante, percebi que aquela família não teria chance.
Decidi que eu mesmo faria justiça naquela noite, não pensei em mais nada, somente em tirar eles daquela cela e ajudá-los a fugir, sem me expor, é claro. Entrando no local das celas, dei um jeito para redistribuir a guarda, que devido a minha posição obedeceu prontamente. Deixei a guarda mínima, e o mais sonolento para ficar comigo naquele setor das celas. Menos de uma hora depois percebendo que o soldado cochilava bati forte em sua cabeça para que ficasse desmaiado, faria o mesmo comigo mesmo depois de ajudar a família a fugir, simulando ter sido atacado por alguma outra pessoa desconhecida.
Cheguei a cela e pedi silêncio a todos da pequena família, que me obedeceram de pronto. Abri a porta e todos foram saindo, fechei a porta sem muito barulho e ia conduzindo o grupo fugitivo. Contudo, a ignorância é companhia inseparável do ser humano, e ao passarmos por uma cela, um dos outros condenados ao perceber o ocorrido, carcomido de inveja e revoltado, começou a gritar, acordando vários detentos das demais celas, que em vez de serem solidários começaram a berrar feito loucos.
Acabei assim, sendo surpreendido pelos outros guardas, que perceberam a minha intenção. Não tive tempo de fazer nada, achavam que eu estava tentando salvar a mulher e me agrediram, para logo depois me jogarem junto na mesma cela daquela família. Poucas horas depois, o mesmo comandante que tinha posto seu filho no controle das posses daquela família, apareceu junto a cela, e olhando desconfiado para mim, como a ler minha mente, decretou que eu seria sentenciado junto por ser um cristão a proteger outros cristãos. Revoltei-me e gritei revelando toda a verdade, dizendo do golpe de seu filho e dele mesmo, e negando ser cristão, variadas vezes! Mas foi tudo em vão...
Vi o sol nascer em profundo desespero, estava numa situação impensada, dando um testemunho para o qual não estava preparado, com o coração revoltado com minha própria burrice. Na hora programada para o espetáculo cruel, sobre o olhar atento dos que se deliciavam com a selvageria, fomos todos conduzidos a arena central. Minha cabeça girava, não prestei atenção aos gritos daquela pequena família, e não reagi ao ataque das feras, por saber ser impossível sobreviver, somente baixei a cabeça e senti os dentes da fera atravessarem meu pescoço de forma fatal.
Não sei quanto tempo depois, vi a luz do sol muito forte quase a me cegar e reconheci numa sombra humana aquele sorriso familiar, daquele senhor idoso, o que tinha me reconhecido lá na cela, e ele muito tranquilo, com as roupas limpas me estendeu a mão. As minhas vestes estavam todas sujas de sangue e ele me falou, acho que em pensamento, que eu iria trocar de roupas e me lavar, pois alguém queria me ver.
Não sei dizer quanto tempo se passou se foram horas ou dias, pois senti de adormeci, quando acordei já estava limpo e de roupas novas, pareciam minhas roupas de soldado romano, mas com tons mais claros e brilhantes. O amigo ancião, que ainda não havia dito seu nome nem de seus familiares, estava ao meu lado e me acompanhou segurando pelo braço. Passos vacilantes, fui levado a uma clareira que me parecia familiar, pássaros diversos cantavam e pequenos animais estavam no chão a olhar para uma pedra ou conjunto de pequenas pedras numa pequena elevação.
O velho senhor me disse que já haviam se passado diversos anos daquela ocorrência infeliz, mas que felizmente eu havia despertado e me perdoado a mim mesmo, coisa que eu não compreendi no momento, somente anos depois.
Ao chegar aquela clareira, percebi a figura luminosa, daquele jovem pregador de Cristo, com o rosto mais envelhecido, mas ainda reconheci aquela alma jovem. As palavras alegres ainda falavam de amor, e das coisas do Cristo, parecia estar falando para todos nós, centenas de pessoas, até para os animais que também lhe escutavam atentamente. Era João, aquele que mais tarde seria reconhecido como João o Evangelista, que na ilha da Patmus receberia do alto as revelações do Apocalipse.
Desta vez, o olhar dele cruzou diretamente com o meu, e como que atingido por um raio, comecei a chorar e nunca mais esqueci aquele olhar amoroso, que tudo me disse sem nada me falar, que tudo me explicou sem nada me dizer.
Talvez para vocês encarnados ele seja reconhecido e mais comumente chamado de Francisco de Assis, mas para mim será para sempre João, simplesmente e maravilhosamente João.


Inspirado por um ex-Soldado Romano

by Luis & Elisa

FICÇÃO ESPIRITUALISTA
Essas histórias ou estórias são ficção[1], qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!

[1] “É claro que estou prestes a expressar um ponto de vista, com o qual, muitos espíritas não concordariam. Mas, facto é que a realidade de Voltz é análoga à de inúmeros autores que, na atualidade, são considerados escritores de ficção, de fantasia. Faz-se necessário abordar certas verdades, fora do âmbito espírita, atingindo alvos distintos daqueles que estão na mira dos escritores do meio espiritualista. Os Imortais, que nos dirigem de mais amplas dimensões, nos incumbiram de escrever numa linguagem apropriada a certo universo literário — digamos, mais materialista, que atraísse, também, determinado círculo de indivíduos que não têm acesso ao vocabulário e à mensagem espírita ou, simplesmente, não sintonizam com a forma religiosa de ver alguns problemas da vida.” – Ângelo Inácio – “A Marca da Besta” – Psicograf. Robson Pinheiro/Casa dos Espíritos.